Carreira
Jurídica no Feminino
Quanto mais nos interessamos por um
assunto, mais ele nos invade a vida e, sem qualquer esforço, a informação vem
ter connosco de forma intuitiva. Assim tem sucedido comigo e os temas
relacionados com o feminismo e o empoderamento da mulher, os quais despertam a
minha atenção e vou acompanhando com algum interesse, notando que neste ano, em
especial, mereceu um novo fôlego, gerando debates interessantes e novas
polémicas.
Em 2016, a palavra feminismo voltou em
força! Este foi o ano em que Barack Obama, numa recente entrevista, assumiu-se
como um feminista, e António Guterreres fez questão de realçar que a igualdade
do género será prioridade na sua agenda equanto secretário-geral das Nações
Unidas. Infelizmente, em direcção oposta, as palavras preconceito, exclusão,
agressão e descriminação, também têm estado muito presentes, a cada progresso
parece existir um retrocesso.
Caros leitores, como já devem ter
percebido este texto que não será meramente jurídico, terá algumas nuances de
sociologia e de recursos humanos, analisados sob a perspectiva simplista de uma
advogada assumidamente curiosa e que gosta de sair da sua zona de conforto.
Quando idealizei o meu blog, não tive
dúvidas que teria de escrever algo sobre o feminismo e analisá-lo sob a
perspectiva de vida das mulheres angolanas, fruto da consciência que fui
ganhando sobre os “direitos das mulheres” nas palestras organizadas pela
Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, em Lisboa, há mais de uma década. Naquelas
palestras eu e uma colega da universidade éramos sempre as participantes mais
novas e, aos poucos, fomos conhecendo várias mulheres juristas vindas dos
quatro cantos do mundo, incluindo dos países PALOP. Aquelas advogadas, juízas,
procuradoras, professoras catedráticas, com sólidas carreiras e cheias de
convicções marcaram-nos, sem dúvida, pela positiva. Nós, jovens estudantes
africanas, provenientes de famílias sem grande tradição de juristas, encontrámos
naquelas palestras e nos jantares que se seguiam (animados ao som de fados ao
vivo) várias referências daquilo que nos queríamos tornar um dia,
profissionais, esposas, mães, solteiras, casadas, e, acima de tudo, respeitadas.
Expresso aqui a minha profunda gratidão à APMJ que tudo fazia para que não
perdéssemos o entusiasmo e nos interessássemos pelos direitos das mulheres, adivinhando,
quase maternalmente, que aquelas experiências seriam demasiado importantes para
o resto das nossas vidas.
E cá estou, em pleno final do ano 2016,
mãe de uma filha de 4 anos - daqui a alguns anos enfrentará um mundo cada vez
mais complexo e competitivo - a escrever sobre o empoderamento da mulher
angolana e os seus desafios para construir uma carreira que lhe permitirá impactar,
com firmeza, na sociedade envolvente. Faço votos que daqui a duas décadas, o
empoderamento de todas as mulheres deste mundo seja uma realidade plena para a
geração da minha filha.
Mas
afinal o que é isso de feminismo e de “mulher empoderada”? O feminismo é um conceito
abrangente, um movimento que nasceu no século XVIII apelando à igualdade entre
homens e mulheres, à não discriminação em virtude do sexo, ao direito ao voto
feminino, à igualdade salarial e as mesmas oportunidades
sociais e profissionais. Já o empoderamento é um conceito mais recente, surge
como a consciência individual de cada mulher do seu poder de participação
social e profissional, a sua perceção de que, com a sua acção, pode
impactar nos campos social, político e económico.
Pese embora o movimento
feminista seja debatido há tantos anos, a verdade é que ainda há muito por
fazer, o próprio conceito de feminismo, outrora radicalizado, vem sofrendo
mutações e o desafio da plena igualdade entre gêneros persiste.
No dia 8 de Março deste ano,
Christine Largarde, apelou no seu seu blog
, à maior empregabilidade das mulheres. Um estudo do FMI concluiu que
dentre as 620 empresas melhor cotadas na bolsa europeia, apenas 12% têm
mulheres em cargos de liderança. O mesmo estudo analisou 2 milhões de
empresas em 34 países europeus e concluiu que quantas mais mulheres
em posições sénior de gestão e nos conselhos de administração,
maior é o retorno
nos activos, variando num acréscimo entre 8 a 13 por, ou seja, conclui-se que mais mulheres na gestão pode significar uma melhoria
nos resultados das empresas.
Quando li
aquela entrevista, imediatamente refleti sobre a realidade angolana e sobre os
desafios da minha geração para construir uma carreira de sucesso. Muitas
mulheres têm desistido das suas carreiras e outras, nem sequer tentam, simplesmente
porque é extremamente difícil conciliar carreiras com as responsabilidades
familiares. Acresce que, culturalmente, a mulher angolana (e africana no geral)
coloca a sua família, os seus filhos, como a sua prioridade, eles são o seu
motivo de orgulho e representam a sua felicidade plena.
O último
Censo realizado em Angola em 2014, revelou
que 64% da população angolana tem menos de 25 anos, a maioria é do sexo
feminino e que a mulher angolana tem, em média, 5,7 filhos, ou seja, é um
número de filhos elevado, dificilmente
compatível com uma carreira exigente, horários de trabalho de 8 ou mais horas
diárias e licenças de maternidade de 3 meses.
Perante os factos narrados, pergunto-me: como
é que nós, jovens mulheres angolanas, temos projectado a nossa carreira em
busca do tal “empoderamento”? Como temos conciliado o desejo do sucesso
profissional e a constituição das nossas famílias?
Angola é um país novo, com uma população
muito jovem e os tempos são exigentes. As carrreiras de sucesso exigem, muitas
vezes, 10 a 12 horas de trabalho diárias. A minha geração tem, pois, o desafio
de gerir uma carreira sólida e cada vez mais competitiva com essa necessidade intrínseca
de ter uma família, ou seja, queremos o melhor dos dois mundos num país onde os
obstáculos desafiam qualquer mulher a tornar-se numa verdadeira “dama de ferro”.
Porém, olhando, em particular, para o
mundo profissional jurídico, percebe-se que as mulheres vêm conquistanto
gradualmente o seu espaço. Existem mais mulheres que homens a terminarem os cursos
de direito. Vêmo-las assumirem as direcções de gabinetes jurídicos de bancos,
de grandes empresas, de gabinetes ministeriais; prestam consultoria, concorrem
para a magistratura judicial e do ministério público. Muitos escritórios de
avogados são liderados por mulheres, elas tomam as rédeas de reuniões
importantes, elaboram pareceres complexos, defendem aguerridamente os seus
constituintes nos tribunais. Claramente, as mulheres juristas são, hoje, profissionais plenamente reconhecidas, o que só tem sido possível com alguns sacrifícios e uma gestão do
tempo criteriosa. Na grande Luanda, uma cidade com quase 7 milhões de
habitantes, um trânsito caótico, para muitas mulheres que trabalham nos
cartórios, tribunais, bancos, empresas, escritórios de advogados, os dias
começam às 4 horas da manhã e terminam às 23 horas, para que tudo se harmonize:
a carreira e a gestão do lar.
A nossa legislação laboral, embora
preveja um regime especial de protecção para as mulheres trabalhadoras,
abrangendo a protecção específica durante a maternidade, peca por não ter sofrido
grandes alterações nos últimos 15 anos. Estranhamente, a nova LGT publicada em
2015 não teve uma única inovação significativa e favorável às mulheres
relativamente à LGT de 2000, ou seja, o legislador não olhou para a nova
realidade de um país de jovens e com alta taxa de natalidade e não prestou
grande contributo num cenário já em si complexo.
Vejamos, após a maternidade, a LGT
atribui, resumidamente, os seguintes direitos: licença de maternidade de 3
meses, uma hora diária para aleitamento, um dia de falta justificada até o
filho completar 15 meses, um dia de férias adicional por cada filho com idade
até aos 14 anos. A meu ver, estas benesses não são suficientes para garantir o
apoio que as mulheres tanto necessitam nesta fase tão importante para as suas
famílias e que requer, necessariamente, um abrandamento profissional. No mínimo, deveriam ser de 6 meses de licença
de maternidade, com possibilidade das mulheres optarem pelo regresso aos 3
meses, trabalhando em regime part-time e com redução de salário; um dia de
falta justificada até o filho completar 15 anos e dois dias de férias por cada
filho. Utopia? Talvez, mas se atendermos aos parâmetros modernos de recursos
humanos nos quais assenta o princípio de que uma maior satisfação pessoal se repercurte
numa maior produtividade e no aumento do lucro, aliado ao facto de existirem
mais jovens mulheres do que homens, então talvez não seja assim tão utópico.
Contudo, a intenção do legislador poderá
ser explicada pela necessidade urgente de se reconstruir um país ainda em
estágio embrionário de desenvolvimento, estamos na fase de levantar as paredes
de casa, não nos podemos “dar ao luxo” de saltar etapas e aspirar as regalias de
outros países que já superaram, há muito, a fase em que se encontra Angola,
diriam os mais conservadores.
Não obstante, analisando a experiência de
países mais desenvolvidos, que proporcionam prazos de licença mais alargados
comparativamente ao nosso e maior apoio social, concluo que o binómio
carreira/maternidade não se esgota na legislação, nem nos apoios sociais. Pois,
muitas mulheres de outras geografias com todas essas regalias continuam a
desistir das suas carreiras em prol do acompanhamento à família.
A meu ver, a solução passa pela flexibilização
e o diálogo entre as lideranças e as mulheres. Tenho verificado aqui em Angola
algumas mulheres (em topo de carreira) que gozam 6 meses ou mais de licença de maternidade,
reduzem os seus horários, ou trabalham temporariamente em regime de teletrabalho
(ou seja, trabalham a partir de casa), conseguem-no entrando em acordo com as
suas lideranças. Não é apenas a lei que resolve os problemas e potencia
carreiras, o ponto mais importante nesta equação é o diálogo com as empresas e
a estratégia de recursos humanos. Veja-se o exemplo que citei da empresa de
consultoria. São as empresas que começam agora a perceber que uma mulher, embora
goze licenças de maternidade e tenha responsabilidades familiares, é uma mais
valia para os seus resultados. Já provamos que somos um recurso humano valioso,
que o nosso cérebro multidisciplinar é um verdadeiro activo. Sim, está provado
cientificamente que o cérebro de uma mulher é diferente do de homem e tem
outras habilidades, temos a chamada “visão periférica”, então há que tirar
vantagem do nosso famoso “sexto sentido” e das nossas reconhecidas competências
para gerirmos as nossas carreiras!
Sem dúvida que os desafios são muitos e
ainda existe um longo caminho a percorrer até que se encontre um verdadeiro
equilíbrio. No entanto, o facto de existirem ideias, discussões, blogues,
empresas com novas estratégias, discursos como os de Barack Obama ou de António
Guterres apelando à igualdade do género e de oportunidades, são um sinal de que
as mudanças vão continuar e os grandes impulsionadores económicos têm interesse
em que estas ocorram com a máxima urgência.
Para terminar, dedico este texto à minha
mãe, Josefina, à minha filha, Diana e a todas as mulheres que lutam diariamente
para serem excelentes profissionais sem deixarem de zelar pelas suas famílias.
Como se diz por cá, estamos juntas!
Até breve,
Leonor
