COMO ESCOLHER UM ESCRITÓRIO
DE ADVOGADOS EM ANGOLA?
Eu tenho um sonho! Gostaria que um dia
todos os angolanos tivessem mais e melhor acesso à justiça, que todos pudessem
ter um advogado que os representasse condignamente e que tivessem pleno acesso
aos Tribunais ou a Centros de Mediação. Lá chegaremos um dia, pois tenho a
convicção que o pleno acesso à justiça é uma questão que aflige a maioria dos
países e dos seus cidadãos. Este é um tema que analisarei numa outra
oportunidade, com maior profundidade.
É evidente que a par da dificuldade de
acesso à justiça e da falta de meios para suportar os custos inerentes aos
serviços jurídicos, existe também entre nós, angolanos, a falta de cultura
jurídica. Há quem possua todos os meios necessários para recorrer aos serviços
de um profissional qualificado, mas não o faça por achar desnecessário ou ineficaz.
Inquieta-me saber que, nos dias de hoje,
muitos são os negócios feitos com base na boa fé e assentes em documentos
duvidosos, sem qualquer consulta prévia de um profissional qualificado. Muitas são
as situações pessoais e patrimoniais que não são legalmente regularizadas e arrastam-se
anos a fio exactamente pela falta de cultura jurídica. Poucos são os que
procuram os serviços de um advogado para garantirem a segurança jurídica de uma
obra de construção civil, de um contrato bancário, de uma apólice de seguros,
ou para reclamarem, por exemplo, de multas fixadas pela administração fiscal ou
pela ofensa de direitos do consumidor.
Meus caros, penso que vale sim a pena ter
a documentação de património regularizada, efectuar uma compra de imóvel com
segurança, fazer um negócio sustentado por um contrato, definir uma separação entre
casais e respectivo património pela via do divórcio, regularizar o poder
paternal, contratar trabalhadores por via de contratos de trabalho bem redigidos,
pois, acreditem, no final das contas ganha quem tem os seus assuntos
organizados e em conformidade com a Lei, não esqueçamos o famoso princípio de
direito “ignorantia legis non excusat”, ou seja, não se pode alegar o desconhecimento da Lei para o seu
incumprimento.
Conselhos à parte e entrando no tema a
que me propus, tenho constatado que escolher um escritório de advogados nem
sempre é uma tarefa fácil, principalmente para quem não tem qualquer afinidade
ou relações com o mundo jurídico.
A missão de escolher um bom escritório de
advogados é ainda mais complexa para quem vive fora de Luanda, onde o meio
social é mais restrito e, como tal, existe maior risco de conflitos de interesses
ou receios de quebras de sigilo, já que a maior parte dos escritórios está
sediada na grande capital, Luanda.
A escolha também é difícil para um
estrangeiro que necessite de serviços jurídicos em Angola e que esteja
habituado a uma maior diversidade e publicidade desses serviços no seu país.
Em Angola, tanto o Código de Ética e
Deontologia Profissional, como o Instrutivo sobre a Publicidade são
conservadores no que respeita à publicidade dos serviços de advocacia. A
publicidade é permitida, mas com restrições; deve ser uma publicidade digna da
profissão, sendo expressamente vedados anúncios nos meios de comunicação social,
resultando que, na
prática, exista pouca publicidade na advocacia em Angola e grande parte dos
clientes faz a sua escolha de advogado com base no factor recomendação.
Contudo, por um lado, é de salientar que
os escritórios mais referenciados já têm sites na internet, onde é possível
verificar os serviços oferecidos e a experiência profissional dos seus
advogados. Por outro lado, há sempre a possibilidade de pesquisar junto à Ordem
dos Advogados quais são os advogados inscritos e regularizados. Esta informação
pode, inclusive, ser obtida no site da Ordem dos Advogados: http://www.oaang.org/.
Escolher um advogado por recomendação é
algo que sempre existiu no mundo profissional, não só na advocacia, mas também
noutras profissões. É uma prática que tem a vantagem de garantir que
determinado escritório ou advogado terá as aptidões necessárias para a resolução
de determinada questão; no entanto, tem a desvantagem de gerar algum comodismo,
impedindo que se o cliente saia da zona de conforto recomendada e arrisque num
escritório ou profissional diferente, quiçá o melhor para a defesa dos
interesses em causa.
Dentre as minhas aventuras de jovem
advogada, tive o privilégio de colaborar com vários tipos de escritório - do pequeno
e modesto com apenas uma advogada que era quase uma mãe; o escritório com cerca
de dez advogados com pendor tradicional
e familiar; ao escritório internacional com representações em vários países do
mundo, pelo que, estou plenamente à vontade para ter uma opinião sólida sobre
este tema.
Sendo advogada de empresa, solicito
alguns serviços a escritórios de advogados, por outro lado, sou frequentemente abordada
por amigos e familiares para recomendar os advogados. Quando tal acontece, a
primeira pergunta que faço é a seguinte: qual o assunto que pretende resolver?
Na minha opinião, existem cinco factores
que devem influenciar a escolha de um escritório de advogados:
1
- O ASSUNTO
Se o assunto em causa é um divórcio ou
uma regulação de poder paternal, eu nunca recomendaria a escolha de um
escritório vocacionado para consultorias a grandes empresas. Neste caso,
recomendo sempre um escritório de menor dimensão ou mesmo um Advogado que actue
em nome individual, pois são assuntos de relativa simplicidade jurídica, porém melindrosos
e da esfera íntima que devem ter um acompanhamento personalizado.
Se o Cliente necessita de consultoria
jurídica para o início de num grande projecto de investimento, que envolva valores
avultados, recomendo que recorra a escritórios de média a grande dimensão,
sendo certo que o mais importante é que os profissionais do escritório possuam know how sobre o assunto, especialmente em direito comercial, laboral
e fiscal.
Se a questão em causa envolver,
necessariamente, o recurso aos tribunais, recomendo sempre escritórios que
possuam um bom departamento de contencioso, com advogados que marquem presença
rotineira nos tribunais, pois existem escritórios muito bem referenciados, mas pouco
se dedicam ao foro, não é este o seu core
business e o contencioso em Angola exige uma forte rotina de presença nos Tribunais.
2- A EXPERIÊNCIA DO ADVOGADO
Um critério que considero importante na
escolha do advogado é a sua experiência. Tente saber se o advogado que escolheu
tem experiência no assunto e se foi bem sucedido em casos semelhantes. Por isso
é que as recomendações são tão importantes no mercado jurídico, são elas que
nos garantem que aquele profissional é o melhor e mais experiente para a
resolução do assunto em questão.
Ao contrário do que já sucede noutros
países, ainda não existe a certificação de especialização de advogados em
Angola, assim, a especialização é aferida pela experiência do advogado em lidar
com determinadas matérias.
3
- A CONFIANÇA NO ADVOGADO
A escolha do advogado pressupõe uma
relação de confiança cliente- advogado. De nada adianta escolher um advogado de
renome e que foi muito bem recomendado, mas que não lhe desperte empatia ou não
inspire confiança, pois, a longo prazo, essa falta de confiança, pode ser prejudicial para a resolução do
assunto, o cliente não sentirá total segurança para transmitir todas as
informações necessárias e julgará sempre que os seus interesses não foram
plenamente salvaguardados pelo profissional escolhido.
Assim, antes de entregar o assunto nas
mãos de um profissional marque uma reunião, verifique se sentiu a confiança e
segurança necessárias. Se não se sentir confortável com o profissional
escolhido, marque outras reuniões com outros profissionais e faça comparações.
4
- A DIMENSÃO DO ESCRITÓRIO
Nos últimos anos, a par dos advogados que
actuavam em nome individual, surgiram vários escritórios de advogados, principalmente
em Luanda. Existem os pequenos escritórios em que colaboram apenas dois ou três
advogados; os escritórios médios, cujo número de colaboradores situa-se entre
os dez a vinte advogados; e também os grandes escritórios que chegam a ter mais
de 30 profissionais. Ainda não existem escritórios com 200 advogados como
acontece noutras grandes capitais.
Para a resolução de um caso jurídico
simples como um divórcio, uma divisão de herança, o acompanhamento na compra e
venda de um imóvel, um advogado de confiança ou um pequeno escritório pode ser
a solução ideal.
Já uma consultoria especializada em
negócios internacionais, projectos estruturais, contratos petrolíferos, parcerias
publico-privadas, deve ser solicitada aos médios ou grandes escritórios que
possuam profissionais capacitados para dar a melhor resposta.
Não quero com isto dizer que grandes
escritórios não resolvam “pequenos” assuntos ou que pequenos escritórios não
tenham o know how necessário para
auxiliar os clientes em grandes negócios. O elemento importante na escolha deve
ser a qualidade dos serviços prestados e a experiência dos profissionais
envolvidos, jamais a quantidade. Contudo, é inegável que existe o pressuposto de
que os grandes escritórios conseguem congregar um maior número de profissionais
“especializados” e bem qualificados, possuindo igualmente uma maior estrutura
administrativa que permitirá, à partida, a resolução de assuntos com maior
rigor e celeridade.
5-
OS HONORÁRIOS
O preço a pagar pelos serviços de um
advogado é, talvez, o factor de maior relevância para a escolha do profissional,
actuando como elemento inibidor para a procura daqueles serviços.
Existe a ideia generalizada que os
serviços de um advogado em Angola são caros. Será verdade?
Não existe uma tabela de honorários
estipulada pela Ordem de Advogados de Angola, excepto para a assistência
judiciária prestada no âmbito do patrocínio oficioso.
Na prática, os preços do mercado variam
de acordo a experiência dos advogados ou o prestígio do escritório.
Assim, por exemplo, uma consulta a um
advogado pode variar entre os 15.000 e os 40.0000 kwanzas (cerca de Usd 90
a USD 300), o que, comparativamente a outros países ou a outros serviços
prestados por profissionais qualificados no mercado angolano, parece-me não ser
assim tão elevado quanto se julga. Devo referir que há muitos advogados que nem
sequer cobram pela primeira consulta.
Quanto à resolução da questão
propriamente dita, os advogados optam por cobrar um valor/hora ou negociar um
valor global pelo trabalho a prestar. A hora de trabalho de um advogado depende
do seu nível de experiência, variando consoante seja um advogado-estagiário, um
júnior ou sénior. Assim, a hora de trabalho de um advogado pode custar entre
15.000 a 55.000 kwanzas (USD 90 a Usd 350), com alguma tendência para a subida de preços,
em virtude da depreciação do Kwanza. Contudo, existe sempre a possibilidade de
ser negociado um valor global pelo serviço, avaliando-se o assunto em concreto e estimando-se um número
de horas para a sua resolução.
Eu não diria que são valores irrisórios,
mas atendendo a influência e importância da intervenção de um advogado na resolução
dos assuntos, quer envolvendo negócios de somas avultadas, ou, em situações de
grande sensibilidade pessoal, a meu ver, compensará largamente o investimento
feito, resultando numa maior segurança para quem beneficia do
acompanhamento jurídico.
Existe a ideia que os grandes escritórios
apresentam honorários mais elevados relativamente aos pequenos escritórios, mas
se prestarmos a devida atenção, por vezes, a diferença de preços não é assim
tão relevante. Já analisei - para o mesmo assunto - propostas de honorários de
pequenos- médios escritórios que apresentavam valores muito semelhantes às
propostas de honorários de grandes escritórios. Fica o alerta.
Abro um parêntesis para informar aos
leitores mais distraídos que o serviço de um advogado é tão válido como o de
outros profissionais e, portanto, plenamente facturável. Se pagamos ao médico
por uma consulta de 30 minutos em que nos é diagnosticada uma gripe, ou ao
electricista que repara o nosso ar-condicionado, porque custará tanto pagar pelo
conhecimento jurídico do advogado prestado de forma verbal numa reunião ou escrito
numa folha de papel?
É importante informar que os cidadãos que
apresentem atestado de pobreza podem recorrer ao patrocínio judiciário gratuíto
por intermédio da Ordem dos Advogados de Angola, a qual nomeará um Advogado
Oficioso para acompanhar o processo.
Em conclusão, espero que estes cinco
passos o ajudem a escolher um bom serviço de advocacia e mudem a pespectiva do
leitor mais reticente, permitindo-lhe olhar para os serviços jurídicos como uma
mais valia e investimento, e não apenas como um custo.
A
grande vantagem é que tem aumentado o número de profissionais no mercado
angolano, tornando-o mais competitivo, há seis anos estavam incritos na Ordem
dos Advogados de Angola 1.023 advogados e 505 advogados-estagiários, hoje já são
1.488 advogados e 2.339 advogados-estagiários inscritos. Quem ganha é
certamente o Cliente!
Até breve!
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